Refém do descaso

Fonte: Google Imagens.

Sempre que dá, evito sair. A ideia de tomar um banho demorado, vestir uma roupa nova, me perfumar e ir para algum lugar diferente vai por água abaixo quando ligo a TV e me deparo com inúmeros casos de violência, sejam eles, assaltos, estupros, balas perdidas, entre outros. Porém, devo confessar que às vezes tenho a sensação de estar literalmente entregue as moscas.

Vejam bem, não estou dizendo que meu pequeno apartamento é sujo e desorganizado ao ponto de ser bastante atrativo para esse tipo de inseto, estou tentando deixar claro que a um bom tempo não saio deste lugar (exceto todas as manhãs para meu serviço). E, de certo modo é como se nem as moscas tivessem interesse em ficar nesse ambiente pequeno, escuro, abafado e fechado.

Meus antigos amigos de faculdade e alguns outros do meu trabalho atual me chamam para sair frequentemente. Eles querem curtir, sair para beber, conhecer algumas garotas e quem sabe até terminar a noite na companhia de alguma delas. Apesar de ser tentador, venho dizendo não para todos os convites, além de sempre inventar alguma desculpa, inclusive tenho que pensar em outra coisa. Afinal, tive dor de dente setes vezes em apenas um mês.

Enfim, toda a situação dos “nãos” chega a ser cômica, mas no fundo meus amigos e eu sabemos o que de fato vem se passando comigo. Inclusive, alguns até já mencionaram que conhecem um bom psicólogo e coisa do tipo. A verdade é que desde que tudo aconteceu, não consigo ser o cara que andava despreocupado pelas ruas, pois as imagens de todo o assalto ainda estão vívidas em minha mente e coração. A forma como eu e minha antiga namorada fomos colocados literalmente na parede por uns cinco ou mais caras, o modo como eles me deixaram totalmente incapaz de movimentar uma parte sequer do meu corpo, enquanto eles esvaziavam nossos bolsos e a estupravam.

Eu gritava, tentava me libertar dos braços, chutes e murros que recebia ao me mostrar resistente, mas nada do que fizesse seria capaz de detê-los. Por fim, eles tiveram a brilhante ideia de me bater até eu desmaiar, e após algumas horas acordei e a vi deitada ao meu lado, ela estava nua, ensanguentada e com roxos por todo o corpo. Aproximei-me de seu rosto e comecei a pedir perdão, pois a ideia de ir ao cinema naquele horário havia sido minha. Comecei a dizer que pegaríamos os responsáveis por tudo aquilo e que no fim tudo ficaria bem, bastavam apenas alguns meses de terapia, e poderíamos fazer isso após adiarmos nossa data de casamento que estava marcado para a próxima semana, mas diante de tudo talvez não fosse nada sensato mantê-la. Falei um punhado de outras coisas, e só depois de muito verbalizar tive coragem de tocar seu rosto, e então tive a certeza do que tanto temia, ela estava morta.

Após aquele dia demorei muito para sair, mas aos poucos fui voltando ao que diante de toda a situação considero normal. Se não saio não é inteiramente por medo, mas por repulsa em relação à sociedade de modo geral. Não consigo fingir que tudo está bem, quando não está. Não sei como posso voltar a caminhar a noite, primeiramente sozinho, e quem sabe um dia com uma nova garota sem temer que os caras a nossa volta sejam os mesmos monstros daquela noite ou outros com a mesma intenção. Ao todo, não consigo mais confiar nem mesmo desfrutar do convívio social. E eu sei...Eu preciso de ajuda.

Observação: Esse texto é totalmente ficcional, mas todos nós sabemos que infelizmente não é uma história difícil de ser encontrada em nossa realidade. De certo modo, quis trazer à tona uma história que tivesse um forte teor crítico em relação à insegurança de nosso país, ao modo como as vidas sejam de pessoas que morrem, ou que sobrevivem, mudam devido à violência.

16 comentários

  1. Oi Renato,
    Pode ser ficção, mas que é realidade, isso é.
    Eu tenho muito medo de sair a noite, aqui em SP e principalmente por ser garota, evito alguns lugares e horários.
    Porém, deixando isso de lado... Um texto bem instigante. Será que o personagem irá melhorar?
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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  2. Deve ser muito difícil viver nesse medo e com tão pouca segurança. Aqui pode ter sido ficção mas já foi a realidade de algumas pessoas certamente! Boa semana.
    --
    O diário da Inês | Facebook | Instagram

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  3. Oi,Renato ♡ Por mais que pareça algo fictício é inviável dizer que isso não é a realidade de hoje em dia. Hoje o dia o mundo está se destruindo por si só e é muito frustrante e é por isso que eu nem tomo gosto de sair de casa pois não é nada muito legal sair andando pelas ruas e ser assaltado. Sabe,foi doloroso ler a parte do suposto estrupo,infelizmente é a nossa realidade. É algo tão triste que nos comove.

    Beijos ♡
    reckless

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  4. Oie Renato =)

    É horrivel viver com medo e infelizmente isso não existe só na ficção. Hoje é dificil encontrar quem não sinta medo de algo, nesse mundo caótico que vivemos.

    Beijos;***
    Ane Reis | Blog My Dear Library.

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  5. Nossa, que texto profundo. Infelizmente, mesmo sendo um texto ficcional, muitas pessoas se identificam com esses sentimentos e fico triste por isso. Doutro lado, adorei sua escrita, muito bem desenvolvida, parabéns!

    http://www.leitorasvorazes.com.br/

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  6. As descrições podem não ser verídicas, mas retratam com muita verdade os temores e dores internas que muitos passam hoje em dia. Infelizmente muitas pessoas que passam por situações desse tipo não conseguem externalizar seus sentimentos, angústias e não conseguem pedir ajuda.
    Obrigada Renato por usar suas palavras para nos mostrar o quanto é duro viver refém do medo diante de um mundo perverso ao qual é tão difícil obter ajuda. Muitas vezes é para esse tipo de pessoas que direciono minhas escritas e espero de coração que essas palavras possam ajudar a quem precise.

    Um grande abraço!

    Deh Will
    http://www.gotasdevalor.com/

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  7. As descrições podem não ser verídicas, mas retratam com muita verdade os temores e dores internas que muitos passam hoje em dia. Infelizmente muitas pessoas que passam por situações desse tipo não conseguem externalizar seus sentimentos, angústias e não conseguem pedir ajuda.
    Obrigada Renato por usar suas palavras para nos mostrar o quanto é duro viver refém do medo diante de um mundo perverso ao qual é tão difícil obter ajuda. Muitas vezes é para esse tipo de pessoas que direciono minhas escritas e espero de coração que essas palavras possam ajudar a quem precise.

    Um grande abraço!

    Deh Will
    http://www.gotasdevalor.com/

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  8. Oi, Renato!
    Infelizmente, isso acontece e é uma dura realidade, sem dúvida. Entendo perfeitamente a reação do personagem principal após a experiência e é algo claramente traumatizante. É muito doloroso.
    Abraço!

    "Palavras ao Vento..."
    www.leandro-de-lira.blogspot.com

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  9. Olá, Renato.
    Parabéns por mais esse texto e por trazer o assunto a tona. Que bom que escreveu que é ficção porque ultimamente leio os textos em alguns blogs e não sei se aconteceu com a pessoa ou não hehe. Eu não gosto muito de sair de casa, mas não me aconteceu nada parecido graças a Deus, só não gosto mesmo hehe.

    Prefácio

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  10. Olá, Renato.
    E quem é que não pensa assim?
    Infelizmente as coisas estão piores a cada dia, sair de casa é uma luta diária, a gente nunca sabe se vai voltar e como vai voltar. É ter fé em Deus e partir com a esperança de que tudo dará certo.

    Beijos,
    Naty
    http://www.revelandosentimentos.com.br/

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  11. Olá Renato,

    Por mais que seja uma ficção infelizmente no nosso tem muitas histórias reais como essa acontecendo todos os dias.
    Espero que um dia as coisas melhorem.
    Bjs

    http://diarioelivros.blogspot.com.br/

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  12. Olá Renato,

    Por mais que seja uma ficção infelizmente no nosso tem muitas histórias reais como essa acontecendo todos os dias.
    Espero que um dia as coisas melhorem.
    Bjs

    http://diarioelivros.blogspot.com.br/

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  13. Um texto super forte Renato, sem dúvida. Infelizmente não tão ficcional quanto a gente gostaria que fosse... quantos casos parecidos vemos todos os dias, né? :(

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  14. Acreditei até o fim que era verdade! Parabéns pelo realismo.
    Vivo em Portugal, aqui a realidade é muito diferente, mas tenho amigos aí e sem bem como isso funciona, eu não conseguiria viver com tudo esse receio...

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  15. Tive um choque com esse seu texto. Achei que falaria sobre fato de ficarmos muito em casa e nao sairmos, mas fiquei pasma com a morte e o estupro presente neles. Infelizmente isso é mais real do que pensamos. Eu nunca vou querer morar em uma cidade grande, a menos que seja MUITO necessario mesmo; Eu gosto muito do meu interior do meu estado que ninguem conhece. Aqui pelo menos eu vivo tranquila. Sei la. Nunca gostei muito desse tipo de coisa. SP literalmente me apavora.
    http://b-uscandosonhos.blogspot.com.br/

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  16. Texto bem realístico e importante.
    Bom restante de semana!

    Jovem Jornalista
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    Instagram

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