Uma conversa de aprendizados e preconceitos

By Renato Almeida - dezembro 13, 2017

Fonte: Pinterest. 

Após mais um dia cansativo na faculdade, dirijo-me para a parada. Ao atravessar, deparo-me  com um conhecido e começamos a conversar. O bate papo flui, ao ponto de nem notarmos a aproximação de uma desconhecida, apenas quando a mesma faz uma pergunta: "O barro passa por aqui?"

Apesar do questionamento ser bastante comum em paradas de ônibus, o que realmente me intriga é a expressão de dor e medo presente na senhora. A sensação que tenho, é de aquela mulher quer dizer qualquer coisa, menos o que acabou de perguntar. Coincidência ou não, o trasporte público que ela está esperando é o mesmo que o meu, porém explico que o mesmo costuma parar um pouco mais a frente, e que estou ali me protegendo do sol e conversando com meu colega. 

Era de se imaginar que ela fosse para o local indicado, no entanto, a senhora nos surpreende ao ficar ao nosso lado e comentar: "Vou esperar aqui com vocês". Olho para meu amigo e percebo que a interrogação não se faz presente apenas em minha expressão. Por fim, a mulher nos explica que acabou de presenciar um assalto no Shopping Guararapes, mais especificamente, no dia do Black Friday. 

O ônibus surge no fim da rua e ela me segue. Ao entrarmos no ônibus, sento próximo a ela, mas não a forço a me contar mais detalhes sobre o que ocorreu, embora minha curiosidade sobre o assunto seja latente. Mas a mulher que deve ter por volta dos cinquenta e poucos anos, surpreende-me mais uma vez ao começar a relatar toda a situação. "Meu filho, o mundo está muito violento", comenta. Concordo com um meneio breve de cabeça. "As pessoas estão matando umas as outras a troco de nada", completa. Concordo mais uma vez. 

A senhora detalha toda a situação, o que mais me espanta em sua palavras, é o quanto nós, como sociedade, temos posicionamento éticos e antiéticos numa mesma fala, isto é, em nossa forma de ver o mundo. "O que mais me abismou é que ele era branco", ela cita em relação ao assaltante. "Branco e bem vestido", finaliza. Dessa vez não concordo e até penso em discordar do seu ponto de vista tão estereotipado, entretanto, não o faço, pois tenho em mente que ela acabou de passar por uma situação difícil, que está abalada e um debate agora não seria uma boa ideia. 

Já percorremos mais da metade do caminho. A mulher não para de falar, repete freneticamente seu espanto em relação ao homem não ser de cor, tatuado ou ter brincos na orelha. Para ela, os criminosos normalmente possuem estas características. Acredito que em determinado momento, ela tenha percebido que eu fiquei chateado, afinal, nunca fui bom em esconder o que sinto. Minha vontade é de expor o que acho sobre o assunto, explicar que estou indignado por ela fazer comentários tão racistas. Como negro, fico triste ao presenciar, na prática, o que muitos dados jornalísticos indicam, que o número de pessoas racistas no país só faz crescer. 

A mulher realmente parece ter entendido meu recado, mesmo sem eu ter dito nada. Do nada, muda o rumo da conversa, começa a me dar dicas. "Tenho um filho que fala com todo mundo, isso é realmente bom.  Mas sempre digo para que ele não ande com todo tipo de gente", ela explica. "Uma vez, ele estava passando pela rua e um antigo amigo que havia se tornado traficante o cumprimentou. Ele poderia ter falado e ido embora, mas não o fez, ficou de papo. Como consequência, levou uma surra da polícia e quase foi preso".

Depois do comentário, a senhora anuncia que vai descer, nos despedimos e fico refletindo sobre o assunto durante todo o dia. Penso no quanto àquela conversa havia sido um misto de aprendizagem e frases de cunho preconceituoso. Mas, apesar de tudo, acredito que ter encontrado com a mulher tenha sido de muito enriquecimento. Talvez, eu devesse ter falado algo, ter mostrado o quanto ela estava equivocada, porém, penso que em certos momentos é válido parar para ouvir e aprender com a fala dos outros, discordar ou não mentalmente, principalmente em minha futura profissão; perceber que talvez eu possa ter também meus preconceitos em relação a outras áreas, meus próprios esteriótipos e tentar mudar isso. E por fim, guardar no coração as dicas da senhora, em relação a ter discernimento sobre com quem se anda. 

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18 comentários

  1. Oie Renatooo! Que saudades que eu estava daqui. Primeiramente, obrigado pelo comentário lá no blog. Gostei bastante da sua crônica, ainda mais pelo fato de que você tenha tirado essa experiência para refletir um pouco: o que acho que devamos fazer sempre! Acho que teria sido cauteloso com os comentários da senhora, mesmo que quisesse dizer uma ou outra coisa, da mesma forma como você foi. Justamente pela situação. Mas é realmente muito triste perceber o quanto isso pode ser corriqueiro. Essa cultura do esteriótipo de um criminoso é algo tão, mas tão remoto que fico impressionado que ainda esteja em nossa sociedade. Uma pena!

    ♥ www.acessopermitido.com

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    1. Olá, Elcimar. Tudo bem?
      Fico imensamente feliz ao saber que gostou da crônica. É triste mesmo perceber o quanto isso pode ser corriqueiro, mas vamos manter a esperança que isso mude um dia.

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  2. É sempre bom expormos nossa opinião mesmo, por mais que doa.
    Gostei do texto!

    Bom final de semana!

    Até mais,
    Emerson Garcia

    Jovem Jornalista
    Fanpage
    Instagram

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    1. Olá, tudo bem?
      Fico imensamente feliz que tenha gostado do texto.

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  3. Caramba! Que texto. Presencio muitos casos como esse Renato e é lamentável como há tanta gente preconceituosa, se surpreendendo por ocorrer esses atos da partos dos "brancos", eles são vistos como perfeitos e as atitudes violentas serem apenas de negros, tatuados e afins. Existe gente boa e gente ruim e isso não é determinado através da cor de pele nem da forma como a pessoa anda ou se veste, infelizmente nosso país tem muito que se desenvolver ainda. Gostei do seu blog e do texto.

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Monique. Tudo bem?
      Que bom que gostou do texto e do blog! Infelizmente o racismo e demais preconceitos estão enraizados em nossa sociedade.

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  4. Olá, Renato.
    Como diz minha mãe, o que é bom guarda, o resto entra por um ouvido e sai pelo outro. Infelizmente o preconceito é algo que está enraizado na maioria das pessoas e mesmo quem diga que não é, tem preconceito de uma ou outra coisa, as vezes mesmo sem nem saber que está sendo preconceituoso por ser algo que a pessoa cresceu aprendendo assim. Tem que ter muita paciência com todos, e eu me incluo nessa hehe. Mas é claro que tem coisas que não dá para relevar, é crime.

    Prefácio

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    1. Olá, Sil. Tudo bem?
      Concordo com o que sua mãe diz. Pois é, precisamos manter a paciência com todos, mas nesse dia, eu meio que me permitir apenas ouvir; acredito que ter feito isso foi de muito amadurecimento, quero dizer, para minha visão sobre a sociedade e a mim mesmo.

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  5. E mais uma vez bato palmas para uma crônica sua. Além de você escrever tão bem, descreve também tão bem e facilmente como é esse mundo que a gente vive. Não gosto quando ouço ou vejo uma atitude racista, sei que sou branca e não posso falar que entendo ou jogar um "Sei como é, odeio racismo" porque eu não to na pele de um negro e não sei realmente como é se sentir assim. Por muito tempo fui uma branca babaca que falava "Não sou racista porque tenho amigas e amigos negros", discurso babaca mas, que depois de muita porrada, aprendi. Não posso ignorar o fato de que odeio comentários racistas e minha vó é racista. Eu acompanho ela em tudo quanto é lugar, ela tem 87 anos, mas me irrito muito quando ela vem com um comentário racista. Outro dia entramos no ônibus e passou na roleta um negão bonito com tranças no cabelo, na mesma hora ela virou pra mim e falou "Nossa! Você viu que cabelo horroroso daquele preto?" e eu falei "Eu não acho horroroso, é a raiz dele. Horroroso seria se ele alisasse, nossa... iria ficar muito feio" aí ela "Não precisa alisar, é só ficar careca" e eu falei "Qual é a necessidade? Se ele tem cabelo, pra quê ele vai ficar careca?" e ela terminou com um "Iiih, acho que você vai casar com um negro, porque tá sempre defendendo" e eu tive que falar "Vó, só vou me casar com quem vá me fazer feliz e me amar reciprocamente, a cor de pele não me importa" e ela ficou calada. Outra vez foi a gente no ônibus e entrou um grupo de meninos negros de chinelo, bermuda e regata, ela ficava encarando e falando que eles iriam assaltar porque eram negros, tipo? Tem vários ladrões brancos em Brasília. Enfim, escrevi um comentário gigante mas só pra dizer que amei o sua crônica que apresenta uma reflexão do nosso mundinho que parece ser tão grande, mas é tão pequeno né?
    Beijos!

    www.likeparadise.com.br

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    1. Olá, Thami. Tudo bem?
      Fico muito feliz que tenha gostado da crônica, e confesso que estou um pouco sem graça os demais elogios. Adorei seu desabafo, e espero que um dia sua vó possa pensar de uma forma diferente, acho super válido você mostrar para ela quando ela diz algo de cunho preconceituoso, pois quem sabe assim ela uma hora ou outra se conscientiza.

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  6. Pelo o que eu percebi é que foi você que se passa nessa crônica, e pelo o que eu reparei também, foi que com a situação você ficou calado, e pela a idade da senhora que você estava conversando, realmente não teria como você ficar batendo boca com ela, porque por ser de mais idade, tem o pensamento mais antigo e que será difícil de mudar, você fez apenas o certo!
    Um beijo grande e muito GORDO
    www.thaissgalbiero.blogspot.com.br

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    1. Olá, Thais. Tudo bem?
      Concordo com tudo o que disse. Obrigado pelo comentário.

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  7. É foda saber que ainda existem muitas pessoas racistas e preconceituosas nesse mundo.
    No fundo todos nós temos preconceitos de algo, mas devemos tentar evoluir e melhorar. Tentar é melhor que nada.
    Você passou por uma situação meio complicada, mas no seu caso eu teria falado que a mulher estava errada, eu não consigo ficar queita haha, já teria com toda certeza começado uma discução. Talvez você tenha agido da forma certa.

    https://heyimwiththeband.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Val. Tudo bem?
      Pois é, é foda mesmo. Mas exemplos como esse, são válidos para olharmos para dentro de nós mesmos e vermos se não termos preconceitos enraizados em nossa mente e coração. E caso encontrarmos algo, tratemos de mudar isso URGENTEMENTE.

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  8. OI RENATO

    é realmente bem triste ver que mesmo com o avanço dos anos as coisas parecem não avançar muito. Com tanta desconstrução que a gente tenta por em prática pra nos tornamos mais humanos com o coleguinha, é difícil saber que nem todo mundo tenta melhorar em benefício do prol comum.

    Acho que nessas horas o melhor é nem discutir mesmo, sabe? As vezes não adianta tentar reeducar pessoas que não querem ser reeducadas :(

    beijo
    www.beinghellz.com.br

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    1. Olá, Hellz. Tudo bem?
      Muito triste, mas é exatamente como você disse: nessas horas o melhor é não discutir, e muitas vezes nem adianta tentar reeducar, infelizmente.

      Até mais.

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  9. Renato, brilhante o teu texto! Cotidianamente me deparo com diálogos do tipo, disfarçados com eufemismos, pseudo preocupações e posicionamentos... Diferente de você, não consigo guardar pra mim, discordo mesmo e arranjo briga, rs!

    Legal você postar sobre isso, pois tenho certeza de que s rviu pra bastante gente e gostei do final, também, pois é verdade, sempre podemos aprender com os preconceitos dos outros.

    Que essa mulher cresça e encontre luz.

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  10. Que texto! Tu escreve muito bem, Renato. =)
    É muito triste ver que ainda existem muitas pessoas preconceituosas nesse mundão. Super te entendo, tem vezes que a gente escuta uns comentários um tanto quanto preconceituosos e dá vontade de abrir a boca e falar que não é assim e isso e aquilo, né? Mas tem situações, como essa, que o melhor é ficar calado. Entra por um ouvido e sair pelo outro mesmo. Enfim, adorei!

    Beijos, quebrarosilencio.blogspot.com ❥

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